sexta-feira, 22 de agosto de 2008

RECEITA DA VOVÓ LAURA



Foto feita no dia do aniversário de 100 anos por Marina RO Hermeto - a letra da legenda era dela.


Não se trata de receita de comida, mas de longevidade. Minha avó, Laura Oliveira Rodrigo Octavio (1894-1995), viveu 101 anos, com muita saúde e lucidez. Até seus últimos minutos estava lúcida, sabendo de tudo e de todos, andando, comendo, subindo escadas normalmente. Lia seu jornal diariamente, lia muitos livros, escrevia, arrumava vasos de flores como ninguém, fazia trabalhos manuais, onde era muito criativa e ainda tocava piano. Aos 80 anos e posteriormente aos 100, publicou um livro de memórias.

Vovó era metódica e parcimoniosa na sua alimentação. Comia de tudo, mas em pouca quantidade. JAMAIS REPETIA UM PRATO. Nunca foi gorda, nem magra. Sempre bem disposta e nunca a vi doente. Resolvi escrever sobre ela, depois de ter recebido email do meu irmão Rodrigo e minha prima Marina comentando minha coluna de Mudanças de Hábitos em que falo sobre “não repetir o prato de comida”. Ambos me relembraram que ela jamais repetia. Tinha uma rotina alimentar com horários e, no meio da manhã, sempre tomava uma laranjada. Quase sempre almoçava e jantava em casa. A comida era variada, mas o trivial: salada, carne, legumes, arroz, feijão, farofa. Geralmente fruta na sobremesa. Doces em alguns dias, pedaços pequenos. Uma vez na semana tinha peixe, geralmente às sextas. Não beliscava. À tarde tomava um cafezinho com biscoitos. No jantar, uma sopa de legumes antes do prato principal que não continha feijão. Lanche à noite, somente aos domingos e talvez no sábado.

Tinha sempre prazer em receber toda a familia para um almoço aos domingos. Um dos pratos era sempre carne assada feita com lagarto redondo, ou posta branca como dizem aqui em Curitiba. Sempre tinha também um pão-de-ló delicioso. Nestes almoços vovó bebia vinho ou cerveja. Refrigerante, jamais. Comida congelada, comida pronta, fast-food, gordura trans, não faziam parte do cardápio.

Nunca comeu vendo TV, pois nem TV via. A televisão da sua casa ficava no hall de entrada, era preta e branca com aquela antena interna em que era preciso usar um Bombril para que alguma imagem fosse vista. Em frente somente uma cadeira dura, nada de sofás confortáveis. Vovó tinha o hábito de se sentar em cadeira dura. Tinha sempre a postura ereta.

Além da alimentação saudável, vovó tinha outro hábito: subir escadas. Sempre foi ativa, com peso adequado e nunca freqüentou academias. Durante quase 70 anos, morou em uma casa de 2 andares em Botafogo cujo pé direito é de 5 metros. Uma escada de 26 degraus a levava várias vezes ao dia para o segundo andar. Com 101 anos ainda subia e descia aquela escada 2 vezes ao dia. Também nunca fumou.

A genética deve ter ajudado na longevidade, mas os bons hábitos praticados durante toda a vida com certeza foram fundamentais para viver sempre com qualidade.

13 comentários:

Paula disse...

Ana,

Sou sua prima distante. Filha da Ana Maria e do Ermírio. Minha mãe me passou o link do seu Blog. Barbaro!!! Já sei de quem vc puxou essa escrita fácil, que não dá vontade de parar de ler!! Parabéns. And keep us posted!!! bjs
Paula

Anônimo disse...

Teca,
Fiquei emocionada! Você conseguiu passar exatamente quem era a vovó.

Parabéns!!!
Agora mande para todos as receitas do pudim de bacalhau e do pão de ló.
Beijos
Amelia

Anônimo disse...

Teca, precioso e preciso o perfil que você traçou da vovó. Fico orgulhosa de ser a autora da foto. Bjs, Marina

Ana Teresa Londres disse...

Paula, claro que me lembro do você. Estive com minha filha Mariana visitando o Atelier gourmand há 5 ou 6 anos.


Quero agradecer a todos pelos comentários, e alguns que vieram por email irei transcrever aqui:

Teca ,

Seus textos ,como sua comida,são sempre deliciosos.
Nada como ilustrar o conhecimento com um exemplo tão pronto e acabado.
Bjs,

Rodrigo
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Muito bom!

E o melhor de tudo era que era uma postura natural. Nunca leu nada sobre nutrição, hábitos saudáveis, dieta de Bevelly Hills, spa, carboidratos...

Tudo bem que o stress era uma palavra desconhecida também...

Miguel Londres
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Ana,
Gostei muito!!!!
Mas, infelizmente, me dei conta que sou o contrário da sua avó...
Tenho gostado muito do seu Blog, na minha opinião é o melhor do gênero!!!
Parabéns!!!!!!!!!!!!!

Fernanda Garcia
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Teresa, que prazer ler seu texto! Que saudade boa vovó nos
deixou! E que exemplo! Muito prazer também em ver a foto
que você escolheu, tirada por mim, no dia dos 100 anos.
Fiz uma série e ela escolheu esta para nos presentear.
Bjs, Marina
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Marina, porei teus créditos na foto.

Ana Teresa Londres disse...

Parte dos comentarios feitos por Irene:

Para AnaTeresa e todos nós, netos e bisnetos:

Lindo o texto sobre a Vovó! Ela diria, certamente, uma das frases típicas na velha família: "Quem conhece, aplaude!"

Perfil perfeito, lições de vida saudável, também.

Lembrei o prazer que ela sentia, comendo - quantos almoços de sábado! - uma costeletinha de porco, acompanhada de tutu e couve à mineira; molhava aquilo, um pequeno copo de cerveja. Para saborear a costeleta até o final, Vovó empunhava o ossinho, mordiscando, com a maior elegância, é claro...

Para equilibrar os colesteróis, à noite, um singelo prato de sopa.

Rafaela disse...

Oi Teresa!
Muito bom seu blog, e essas lembrancas da bivo... Muito bem escritas e lembradas! Ela era capaz de ganhar uma caixa de bombons e comer 1 por dia, ja eu....
Bjs,
Rafaela

Anônimo disse...

Oi Teca,

Estavamos lá, na casa do Alto da Tijuca, comemorando os 100 anos de Da. Laura, figura memorável.
Casa cheia, com a família e os amigos.
De tempos em tempos, releio o "Elos de uma corrente" que ela nos presenteou com uma dedicatória belíssima
Saudades daqueles tempos.
Ótima a análise que fez de sua avó.
Bjs e saudades,
Beta e Alberto

Ana Teresa Londres disse...

As lembranças da vovó são sempre boas, e a casa do Alto era muito ela. De vez em quando também releio o livro, acho muito interessante a descrição dos costumes do inicio do século passado...E o tempo passa...
bjs

Bento Fleury Curado disse...

Achei admirável seu texto sobre Laura Oliveira Rodrigo Otávio. O livro de sua avó é belíssimo e seus textos, agora, trazem um pouco do sabor dos trabalhos dela. Parabéns. Moro numa pequena cidade perto de Goiânia, mas aprecio em muito a literatura feminina no Brasil, ao estilo da produzida pela admirável laura. Um abraço.

Ana Teresa Londres disse...

Olá Bento,
Fiquei curiosa em saber de onde vc conhecia minha avó. Como vc disse que gosta de literatura feminina, foi lançado no ano passado um terceiro volume de Escritoras Brasileiras do Sec. XIX, no qual a vovó foi incluída. É bem interessante. A obra é organizada por Zahidé Lupinacci Mozart, ed Mulheres.
Um abç

Angel disse...

Dando uma arrumação em meus livros, encontrei o livro de sua avó.Amarelado, maltratado, datado de 1973. Fiquei curiosa pois não me lembrava dele e tinha certeza de que não o havia lido.Não me pergunte como ele foi parar no meio dos meus, porque existem coisas que não posso explicar. De vez enquanto me acontece isso, devo atrair livros para minha estante, o de sua avó não foi o primeiro.Mistérios maravilhosos que me acontecem lá uma vez ou outra.Sei que eles ficam lá a minha espera, porque eu os amo! Adorei ler a história de sua família contada por sua querida avó!
Angela

Ana Teresa Londres disse...

Oi Angela,
O livro que vc tinha da minha avó foi de quando ela fez 80 anos, que publicou a primeira vez. Em 94, com 100 anos republicou os Elos de uma corrente acrescido de novos elos. O que me espanta é que uma pessoa possa fazer isto com esta idade!
Um abraço
Ana Teresa

Matilda disse...

As receitas das vovos sempre são muito queridas, mas como cozinham elas não existe!
Minha avo se mudou a apartamentos mobiliados Buenos Aires e quando fui a visitá-la me cozinhou de tudo!